Victor Carneiro


"Temos de abandonar a cultura do mais barato e mudar o chip para o melhor”


Distinguido com o Prémio Carreira CONSTRUIR 2025, é uma figura de referência da engenharia nacional e foi o presidente da APPC que mais tempo exerceu funções [entre 2007 e 2019], sendo seu sócio honorário. Dono de um percurso profissional que atravessa várias décadas, geografias e ciclos económicos, contribuiu inegavelmente para o desenvolvimento da engenharia portuguesa, através da longa ligação à COBA e da forte projeção internacional da empresa. Conciliador, apaixonado por História e ousado – ou não tivesse ido aprender chinês aos 70 anos -  passou a vida a lidar com o desconhecido. 

Nesta entrevista, revisita o seu percurso pessoal e profissional — de Angola a Lisboa, do associativismo estudantil às grandes obras públicas — e reflete sobre alguns temas decisivos para o futuro do setor: a necessidade de abandonar a cultura do preço mais baixo a favor da valorização da qualidade, a renovação geracional e a urgência de entender as diferenças do outro.

Foi duro adaptar-se à reforma?

Não. Enquanto estão ativas, as pessoas devem organizar a sua saída. Se não o fizerem, podem ser apanhadas de surpresa. Percebi que era necessário ir fazendo a transição e foi isso que fiz. 

Socorreu-se de algum novo passatempo?

Decidi inscrever-me no curso de chinês. Tive muito contacto com a China nos últimos anos da vida profissional e fiquei curioso com aquela civilização. É um estudo muito exigente, sobretudo em termos de concentração e memória. A mim fez-me bem. Como sou uma pessoa de metas, fui -me mentalizando: enquanto tiver a sensação de que estou a aprender mais do que a esquecer, está tudo bem.

Este ano [2025] comecei a sentir que tinha mais dificuldade em reter e interrompi. Mas continuo a interessar-me e a observar a evolução daquela sociedade.

Também me pus a ler História. Estudei a História da China e, principalmente através das obras históricas  de Peter Frankopan, autor de As Rotas da Seda e de As Novas Rotas da Seda que se afastam da visão eurocêntrica do Mundo, acedi a um relato diferente da História e a uma reflexão sobre o isolamento e fragmentação que assolam o Ocidente. É muito interessante olhar para o mundo com olhos diferentes. 

A primeira vez que fui à China tive uma surpresa enorme. Gerou em mim uma sensação avassaladora. Tinha a imagem de um país com algum atraso e fui encontrar infraestruturas espantosamente modernas. Creio que é a ilustração clara de que todos os povos querem melhorar. Hoje, o grande desafio das nossas sociedades é acomodar todo o mundo. Porque os pobres querem deixar de ser pobres, melhorar de vida.

O que é que encontrou de mais distintivo naquela sociedade?

O chip deles é completamente diferente do ocidental. Os asiáticos pensam de outra perspetiva, fortemente influenciados pela filosofia de Confúcio e pelos seus mandamentos. Continuam a ter disciplina, organização e aquele respeito do tempo dos imperadores. Ninguém ultrapassa a hierarquia estabelecida, e isso é-lhes natural, não representa nenhum  sacrifício. E quando há uma decisão, seguem-na. Da minha experiência, as reuniões serviam para ouvir e para levar informação. As decisões vinham depois de tudo digerido. Isso reflete bem aquela sociedade; é uma sociedade que respeita a família e os mais velhos. E a capacidade de adaptação é extraordinária.

Diz-se que têm uma obsessão por réplicas…

Estão obcecados com a ideia de melhorar. Copiam, mas o que fazem não é de qualidade inferior. Vão observando e melhorando. Por isso estão claramente à frente em certos domínios. E investem muito na juventude, o que é uma boa receita política. Enquanto conseguirem dar resposta à juventude, evitam a insatisfação. A juventude quer evoluir, quer ter uma casa, quer viajar, quer usufruir.

Os chineses não viajavam nem tinham tempo de lazer.

Hoje estão em todo o lado. Há duas políticas muito importantes: incentivar o consumo interno e investir na formação e na excelência. A quantidade de estudantes chineses que andam nas nossas universidades, e em muitas outras ocidentais... Todas as pessoas que conheci, professores ou alunos, acabam por regressar à China e estabelecer a sua vida, mas vão influenciados pelo que aprenderam.

Durante algum tempo, houve uma certa  desconfiança dos portugueses relativamente à comunidade chinesa. Isso desapareceu ou ainda se nota alguma réstia de preconceito?

Há menos preconceito porque outros vieram ocupar o lugar deles na escala social. Por outro lado, são uma comunidade muito discreta, não fazem barulho, respeitam. 

Nada parecidos connosco, os latinos.

Nós, os ocidentais, fruto dos últimos 200 anos de domínio sobre o mundo, criámos a ideia de que o nosso modo de vida e a nossa forma de organização é a certa. Os outros estão todos errados. Defendemos as nossas democracias querendo que todos desejem ser democratas como nós. Apesar de sermos, grosso modo, um sétimo da população mundial! É extremamente importante que as pessoas reconheçam a diferença e percebam que há lugar para todos, apesar de isto parecer ingénuo no mundo de hoje. Esta noção pesa muito na evolução e a verdade é que as sociedades foram sempre evoluindo para melhor.

Com alguns recuos e avanços - a evolução não é linear.

Com choques civilizacionais, com guerras, mas vivemos muito melhor hoje, na Europa, do que antes. Agora, esquecemo-nos de que existem muitas regiões no mundo onde ainda há conflitos, há miséria e falta de educação. 

Com a globalização e a comunicação, as pessoas passaram a ter acesso ao outro lado e anseiam chegar a esse patamar. Daí os fluxos migratórios, comerciais e industriais. Esse é o grande desafio do mundo ocidental, em particular da Europa, onde temos uma população a decrescer, mas continuamos a viver um sonho. 

A engenharia chinesa está entre as mais evoluídas? 

Ao nível das infraestruturas, já fizeram tudo o que havia para fazer. E muitas vezes. Para mim, a Ponte Vasco da Gama é uma obra fabulosa, que nos enche de orgulho. Mas, na China, há muitas pontes maiores do que a Vasco da Gama no atravessamento dos grandes rios. Uma vez, a caminho de Hong Kong, de ferry, comecei a ver uma estrutura enorme ao longe: assim como quem está a olhar para o viaduto sul da ponte Vasco da Gama, mas em pleno mar aberto e com quilómetros. Explicaram-me que era a ponte que liga Hong Kong a Macau e que estava em fase avançada de construção. Quando lá voltei, no ano seguinte, já tinha sido inaugurada e tinha 40 e tal quilómetros.  

Os chineses são imbatíveis na capacidade de execução e de planeamento. 

Fale-me um pouco do seu percurso.

Vim de Angola para Lisboa ainda com 16 anos, em 1967, depois de  acabar o liceu no Lubango. O curso de engenharia do [Instituto Superior] Técnico era de seis anos, depois passou a cinco, mas demorei quase dez a concluir porque estive três anos sem estudar. Acabei por ser pai muito cedo, com 20 anos, e sendo pai, achei que tinha de trabalhar. Estava envolvido na Associação de Estudantes do Técnico e comecei a trabalhar numa secção de intercâmbio com universidades e associações de estudantes de toda a Europa. Geria um programa que implicava fretar três dezenas de voos para Paris, Londres, Amesterdão e Copenhaga, assumindo a AEIST (Associação de Estudantes do Técnico) o risco económico e comercial desses fretamentos. A  venda das viagens era feita em coordenação com algumas centenas de voos para outros destinos e através de associações de estudantes de toda a Europa.

Foi um período extremamente rico na minha vida. Conheci a Europa toda. Estamos a falar do início dos anos de 1970, antes do 25 de Abril. Entretanto, parei de trabalhar, terminei a licenciatura e entrei na COBA, por baixo, como engenheiro estagiário.

Veio para Lisboa sozinho?

Sim, a minha família só veio depois do 25 de Abril.

Porque optou pelo curso de engenharia? 

Até certa altura quis ser médico, mas um dia fiz uma grande ferida num pé, a jogar à bola, e quando vi aquele sangue todo desmaiei. Aí decidi ir para engenharia.

Onde vivia em Angola?

No Lubango, que foi fundada por uma colónia de madeirenses, logo após o célebre ultimato dos ingleses [resultante do Mapa Cor-de-Rosa]. Os meus antepassados madeirenses foram para lá de barco e depois de carro de bois, até ao Planalto Central de Angola. A minha geração já é a terceira em Angola; a família era grande e conhecida na cidade.

Quando chegou a Lisboa, o que lhe provocou mais estranheza?

Eramos um bocado diferentes, por influência de alguns professores, em particular de uma professora de 20 e poucos anos, que era muito próxima. Ficámos um bocadinho diferentes do tradicional, tanto que viemos bastantes para Lisboa.

Para onde foi morar?

Aluguei um quarto.

Não tinha família em Lisboa?

Acho que não… Por acaso tinha uma prima muito afastada e de vez em quando ia jantar a casa dela.

Aterrou aqui sem referências. Foi difícil?

Encontrei uma sociedade muito fechada, muito conservadora, mas a juventude universitária era muito aberta e já lutava pelo seu futuro. A minha ligação à Associação de Estudantes do Técnico aconteceu nas cheias de 1967 e foi um momento de grande revolta, mas também de grande união entre estudantes. Muitos da minha geração formaram-se influenciados por isso. Vivi intensamente a vida associativa e académica, as eleições de 1969, o suposto período de abertura de Marcelo Caetano, que falhou. Uma questão que pesava muito na nossa geração era a vida militar. Acabei por não fazer tropa por um fio: ia ser incorporado em outubro de 1974, aconteceu o 25 de Abril e passei à reserva.

Como viveu o 25 de Abril?

Foi uma grande alegria. As pessoas que não viveram essa época têm dificuldade em perceber o que aconteceu. Nos anos do PREC, houve algum exagero, mas faz parte das revoluções. A transição foi dolorosa porque não foi planeada. E tudo o que não é planeado torna-se mais complicado. 

O regime não conseguiu evoluir, o que resultou numa descolonização tardia, dramática e sem controlo. Era preciso sair, acabar com a guerra. 

Como foi a vinda da sua família para Portugal?

Foi difícil, mas não houve hipótese de ficar, as pessoas começaram todas a abandonar o país. O meu pai esteve pela primeira vez de férias em Lisboa em 1975, regressou a Angola em Agosto e uma semana depois queria vir embora. 

Como encara a forma como o país absorveu esses portugueses?

Houve os seus atritos, como há sempre, mas acho que foi uma integração perfeitamente pacífica. Encaixar cinco por cento da população de uma vez, não é fácil… Teve os seus problemas, custos pessoais e emocionais, mas foi feito, e muito bem feito.

Alguma vez voltou ao sítio onde vivia?

Voltei em 2007 ao Lubango, onde passei a infância e adolescência, e foi interessante relembrar algumas coisas. Depois da independência, por motivos profissionais, ia a Angola de dois em dois ou de três em três meses. E quando entrei na COBA, nos anos de 1980, demos suporte técnico a uma empresa angolana, o que fez com que lá vivesse quatro anos. Fui com a minha segunda mulher. Havia guerra, mas já fora dos centros urbanos, portanto, não viajava. Acabámos por estar muito confinados mas foram anos extraordinários, na medida em que foi um tempo de muita convivência e participação em algo novo. Muita coisa estava a ser construída praticamente do zero, as competências técnicas e administrativas eram extremamente baixas. Tínhamos tempo e convivíamos muito - trabalhava-se das oito às seis, portanto, das seis da tarde à meia-noite não havia nada para fazer. As pessoas juntavam, conversavam… Tínhamos muitos amigos angolanos e depois de voltar continuei a ter uma ligação forte com Angola. 

Quando fizemos 40 anos do final do liceu, fomos lá com a tal professora e andámos a passear, nomeadamente pela cidade onde nasci. Foi gratificante, encontrei uma cidade muito diferente.

E o país que Angola é hoje, desapontou-o?

Não. É um país novo, em construção, cada vez com mais personalidade e uma população muito orgulhosa da sua independência.

A relação com Portugal tem sido um pouco de altos e baixos, não?

Eu diria que, neste momento, as relações entre os dois povos são adultas. As gerações que estão à frente dos dois países já não têm nada a ver com o passado.

Embora, nas últimas comemorações, o Presidente angolano tenha proferido algumas palavras menos simpáticos, digamos…

Que Angola foi uma colónia portuguesa é ou não um facto histórico? Nós também nos referimos assim aos espanhóis… Dizemos que tivemos de nos defender deles… Tem de ser entendido com algum enquadramento histórico. Reconhecer que o colonialismo foi mau? É obvio que na sua essência o foi…em criança, lembro-me de algumas coisas muito negativas. Mas há muitas outras das quais nem me apercebi. Tem de se contextualizar. Não vale a pena mentir, nem escamotear. O mais importante é compreender o desejo que todos têm de melhorar o seu mundo. 

O mundo sempre foi a sua vocação. E na COBA teve um papel determinante nas relações com o exterior. Isso ajudou a viver a crise de 2008? 

A COBA sempre foi uma empresa voltada para o exterior. A minha grande escola foi a COBA, e não só de engenharia, até mais de cultura. O espírito, a maneira de estar e de lidar com os outros quando se está fora é determinante. Ajudou noutras crises, como a do final dos anos de 1980, na ressaca do 25 de Abril e do PREC antes da adesão à União Europeia.

Depois vieram os anos do cavaquismo e as obras públicas multiplicaram-se.

São os anos da integração na CEE, das infraestruturas rodoviárias. A empresa cresceu muito e contrabalançou a atividade no exterior com a interna. A COBA soube estabelecer parcerias para ganhar competência e ir crescendo e diversificando a sua atividade e geografia. Portanto, quando se dá a crise de 2008 estava fortemente implantada em Moçambique, na Argélia e em particular em Angola, com projetos de abastecimento de água e energia. Nessa altura e até ao fim da primeira década dos anos 2000,  tínhamos cerca de quarenta por cento de atividade no exterior e cerca de sessenta no interior. Durante a década de 2010, na sequência da crise financeira de 2008/2009, chegámos a ter apenas sete por cento de atividade no mercado interno - o resto  era tudo lá fora.

Agora vamos ter outro ciclo de grandes investimentos.

Temos de estar preparados para ciclos que nunca são simétricos, e que nunca acabam exatamente como gostaríamos. Mas temos de estar à altura de os enfrentar e de sairmos melhor deles. Neste momento, as empresas em Portugal têm um desafio enorme: no final do PT2030, que será mais 2035, quando terminar esse ciclo longo de grandes investimentos que exigem muita competência e capacidade, é preciso que essa capacidade continue a aumentar; que haja um plano para o dia a seguir. Temos muitos desafios pela frente: não há pessoas para fazer tudo o que é exigido, é necessário cimentar a confiança dos investidores e dos parceiros, rejuvenescer os quadros.

Como é que as organizações se renovam?

Dos que fundaram este setor, quase todas as empresas desapareceram. A COBA é das poucas que resiste, desde 1962. Já vamos na quarta geração.

Mas hoje, as pessoas atribuem importância a coisas que nem existiam no meu tempo. Procuram mais a felicidade, o bem-estar pessoal e familiar e menos o sucesso.

Talvez vejam na geração anterior uma dedicação profissional que nem sempre foi recompensada…

Julgo que é preciso encontrar um ponto de equilíbrio em que as pessoas não sejam obrigadas a prescindir da vida familiar para progredir. Esse é o grande desafio das nossas sociedades: incorporar a vontade que as novas gerações têm. E remunerar, proporcionando conforto. É preciso que as pessoas possam usufruir do desenvolvimento. Hoje já não é tanto o automóvel, mas ter boa habitação, boas condições de mobilidade, poder fazer férias – viajar já não é um luxo. Mas a nossa mediana está muito baixa. Não me choca nada que os jovens queiram mudar de geografia, que queiram ir trabalhar para outro sítio. Um jovem alemão que venha a Portugal não é um imigrante, é um expatriado. Nós continuamos no nosso discurso de que o engenheiro português que vai trabalhar para a Alemanha é um coitado. Está na altura de mudar esse paradigma, porque hoje é quase como viver no Porto.

Será culpa da memória de muitas gerações de emigração desqualificada?

É um estigma que ainda não ultrapassámos, apesar de a maioria de nós - que tem ou veicula essas opiniões - nunca ter tido um familiar que emigrou. Eu não tive, não considero ter vindo de Angola para cá seja imigração. Foi um acidente da história.

Como é que se resolve o problema da emigração dos jovens?

Temos de abandonar a cultura do mais barato; mudar o chip para o melhor, para o mais eficiente. No caso da engenharia, as empresas em Portugal não conseguem pagar salários mais elevados porque não conseguem contratar os seus serviços da forma adequada. Existe, digamos, no setor público, perfeitamente enraizada, a cultura do preço mais baixo. E quem não adjudicar, seja o que for, ao preço mais baixo, é porque tem algum interesse. Mesmo os privados, quando contratam, nem sempre escolhem o melhor. Há empresas estrangeiras que se instalam em Portugal e que conseguem pagar ordenados muito mais elevados aos engenheiros portugueses. Veja o exemplo da Start Campus ou Bosch, em Braga, veja uma Siemens. É uma bolha que não tem nada a ver com a nossa realidade. A cultura da qualidade é a única forma de melhorar toda a cadeia. 

Por exemplo, no projeto da Ponte Vasco da Gama, houve uma parte da engenharia que veio de fora e que nivelou por cima. O que nos leva a outra questão: se a qualidade vier do estrangeiro, ótimo, as pessoas aderem, mas cá dentro… Mesmo aquele universo que trabalhou com essas empresas, quando elas saíram de Portugal voltou às velhas práticas. Por isso, relativamente à questão do investimento estrangeiro, penso que pode ser positivo, mas é preciso que tenhamos massa crítica para conseguir absorver a colaboração.

Recentemente, muitas empresas tiveram de se socorrer de companhias estrangeiras no domínio ferroviário, mas não tiveram dimensão nem massa crítica para fazer uma verdadeira parceria. 

Teme que isso aconteça neste novo ciclo de obras públicas?

Acho que há um movimento nas empresas portuguesas de criação de estrutura e de reforço da capacidade. Embora sendo tardio, é extremamente positivo para desenvolver competências e honrar compromissos, porque, em engenharia, a confiança é fundamental.

Antes havia regras: os projeto eram atribuídos em função da competência e da confiança que os clientes tinham. Hoje, é impensável. A sociedade não aceita, acha que estão todos feitos uns com os outros. Na grande crise de 2008, o setor da construção foi apontado como responsável.  E foi quando o preço mais baixo passou a dominar as regras da contratação pública. A forma como se aplica e o contexto a que se aplica são completamente desastrosos - não há ninguém com responsabilidade que assuma o risco de atribuir uma obra a um preço mais elevado.

É a cultura da desconfiança.

Uma das coisas que a APPC defende e que merece todo o meu apoio é este sistema da qualificação [SINQUAE]. Não é fácil, mas é preciso ultrapassar algumas dificuldades, compatibilizando essa qualificação com as regras da concorrência nacional e europeia, e garantindo o acesso de todos aos mercados. O princípio diz tudo: é preciso ter competências e capacidades para fazer. O mercado não pode estar aberto a quem não cumpre os mínimos. Tivemos recentemente exemplos de grandes contratos atribuídos a empresas sem experiência anterior! Começaram ao contrário: primeiro ganharam o contrato e depois é que incorporaram as mais-valias e a técnica. 

Tendo dedicado tanto da sua vida ao associativismo, quais diria que são hoje os maiores desafios que o setor enfrenta?

A capacidade de juntar forças; há uma grande discrepância de interesses. Somos uma manta muito díspar. Também existe uma certa falta de visão empresarial, embora menor do que antes. Tivemos excelentes engenheiros que fundaram empresas, que conseguiram ganhar a confiança dos cliente e fazer um bom trabalho, mas gerir é outra coisa... É preciso trazer valências para a empresa, ganhar dimensão e assumir responsabilidades diferenciadas. A engenharia tem, cada vez mais, de estar associada à conceção, ao planeamento e ao financiamento. E para isso é preciso ter escala, inventar soluções diversificadas para os clientes, nomeadamente em África e na América Latina, que podem ser bons laboratórios, entre aspas.

As grandes empresas de engenharia são, hoje, gestoras de empreendimentos. Fazem tudo o que o investidor precisa. Por exemplo, os grandes investidores estrangeiros  em Portugal não estão preocupados com a engenharia nem com a construção, só querem saber quando é que fica pronto, com qualidade, para poderem vender e retirar os seus proveitos. A engenharia é uma peça naquele puzzle todo. Quanto mais conseguirmos subir na cadeia de valor, mais respeito ganhamos.

A escala é a escala do país, mas também a que nós nos  impomos. Temos tendência para nos assumirmos como mais pequenos do que aquilo que somos. É preciso alguma ambição.

Em que grandes obras participou que o deixam orgulhoso, além da Ponte Vasco da Gama?

Muitas no setor da energia, ajudar a desenvolver projetos de grandes centrais hidroelétricas, grandes projetos de irrigação. A transformação do Alentejo, por exemplo… E depois, as obras dos metropolitanos de Lisboa e do Porto, as autoestradas todas deste país e grandes empreendimentos lá fora. Tivemos um papel muito relevante em quase tudo o que foi feito em hidroeletricidade em Angola nos últimos 15 anos. 

Algum dos seus filhos seguiu as suas pisadas?

Não. Tenho uma filha arquiteta, outra designer e um filho engenheiro eletrotécnico e de computadores, e depois tenho os netos: dos mais velhos, um  acabou o mestrado em  gestão na Universidade Nova, outra seguiu fotografia e criação de moda e um terceiro fez a licenciatura em engenharia e gestão industrial no [Instituto Superior] Técnico, mas vai fazer um mestrado em finanças na Nova. Outros dois entraram na Nova, para fazerem gestão. É muita  gestão, está na moda. Mas eu costumo recomendar: não se esqueçam de que, para gerir, é preciso haver produto.

Os dois mais novos estão ainda no secundário mas a tendência é clara; num caso para desporto, ténis, e outro para a música, piano no Conservatório Nacional.

Como se diz engenheiro em chinês?

Já soube [risos]. [Depois de consultar o telemóvel]. É gōng chéng shī. Mas gongs há muitos, depende do tom. O chinês não é uma língua com alfabeto mas com milhares de caracteres diferentes.



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